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Marcelo Bizerril

Prêmio Off Flip 2021

Roteiro para um Natal qualquer

Marcelo Bizerril

    

       Era a primeira vez que os dois renomados roteiristas trabalhariam juntos. O projeto era filantrópico: produzir um filme cuja renda fosse revertida para uma rede internacional de ajuda humanitária a crianças que perderam os pais na guerra. O tema era desafiador, o Natal. Se, por um lado, os dois tinham talento de sobra para elaborar o melhor roteiro de filme de Natal já visto, aquele trabalho exigiria a superação das abissais divergências políticas e filosóficas que já haviam alimentado discussões homéricas entre as duas personalidades. Após curta conversa ao telefone para ajustes gerais, marcaram o encontro em um Café discreto com uma bela vista da cidade. Ambos se esforçaram para chegar no horário combinado, cumprimentar o outro e sorrir amavelmente. Após algumas trocas de gentilezas vagas, Jorge arriscou: “Então, eu pensei em Papai Noel como personagem central.” “Claro que sim, você jamais perderia a oportunidade de um elogio ao comunismo”, interveio Don, secamente. “É por causa da roupa vermelha? Pensei que Papai Noel fosse um símbolo capitalista, e que isso o agradaria.” Don sorriu: “Foi uma brincadeira, para quebrar o gelo, prossiga.” “Papai Noel seria um mendigo. Ele lutaria para erradicar a desigualdade e o sofrimento do mundo. Salvaria um garoto órfão da desilusão com a vida”. Os dois se olharam em silêncio por segundos intermináveis. Jorge deu um gole no café. Don mexeu o seu com a colher, a depositou no pires, suspirou, e retrucou: “Tenho uma alternativa. Papai Noel seria um milionário excêntrico. Ele lutaria contra a ameaça Chinesa. Lideraria um combate para salvar o presidente dos Estados Unidos.” Jorge ficou imóvel por uns instantes, a boca semiaberta, até que completou: “A felicidade do garoto representaria o renascimento da esperança no mundo inteiro.” “Falta ação nesse enredo. Após resgatar o presidente, Papai Noel seria a última esperança para salvar a humanidade, detendo um asteroide em rota de colisão com a Terra.” “Não é preciso um asteroide, a humanidade já está dando conta de destruir o planeta e a si própria.” Antes que a discussão avançasse e saísse de controle, os dois notáveis roteiristas se calaram. Tomaram o café em silêncio, e assim permaneceram ao longo do resto da tarde, entre suspiros e comentários genéricos sobre o clima, os olhares perdidos no horizonte. No íntimo, Don cogitava que talvez fosse melhor produzir dois enredos para dois filmes de Natal. Jorge imaginava dois Natais, em dois mundos distantes.